domingo, 6 de fevereiro de 2011

Este vento..





Este vento não leva apenas os chapéus,


estas plumas, estas sedas:

este vento leva todos os rostos,

muito mais depressa.



Nossas vozes já estão longe,

e como se pode conversar,

como podem conversar estes passantes

decapitados pelo vento?



Não, não podemos segurar o nosso rosto:

as mãos encontram o ar,

a sucessão das datas,

a sombra das fugas, impalpável.



Quando voltares por aqui,

saberás que teus olhos

não se fundiram em lagrimas, não,

mas em tempo.



De muito longe avisto a nossa passagem

nesta rua, nesta tarde, neste outono,

nesta cidade, neste mundo, neste dia.

(Não leias o nome da rua, - não leias!)



Conta as tuas historias de amor

como quem estivesse gravando,

vagaroso, um fiel diamante.

E tudo fosse eterno e imóvel.



New York, 1959



Cecília Meireles

In: Poesia Completa

Viagem (1939)

Nenhum comentário:

Postar um comentário